Flaubertianas

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Epistolário: tempo ocioso


MEU VELHO AMIGO, amigo mais íntimo e mais abstrato de todos. Não consigo nunca despachar uma única carta para ti (sabe-se lá se desta vez conseguirei...), pois, com efeito, sempre me arrependo delas no momento mesmo em que as termino. Não é que elas sejam horríveis demais, nem tampouco confusas – já que confuso eu serei de qualquer jeito –, mas é que sempre falta nelas uma apreensão verdadeira do que procuro testificar. Assim, convenhamos logo, também não se trata de nenhum escrúpulo em ser honesto sobre mim mesmo. Mais de uma vez, mandei às favas a honestidade. Ela decididamente não me importa. Trata-se, embora, de ser preciso. De acertar na medida das palavras... do preenchimento das palavras, do significado posto em seu alinhamento, eliminando tanto quanto for possível sentidos arbitrários ou vazios... Mas, céus, acaso tenho conseguido outra coisa além disso mesmo que temo? Arre, teu amigo é um parvo, um paspalho incapaz.
Aliás, não fosse tua paciência, tão infinita quanto tua metafísica existência, já terias te cansado de mim e partido. Assim mesmo, se acaso precisar ir embora, compreenderei que tenhas outras demandas. Igualmente se tiveres de suspender tuas respostas, pois, vá lá, não te acanhes por minha causa. Estou bem, bem o bastante para rir de todas as coisas e por quantas vezes tiver de encará-las. Pouco importa que sejam mil, duas mil. Estarei aqui, seguro por minhas últimas convicções e esperando. Sempre esperando, não é? Afinal, o que seria se se deixasse de esperar, se me permitisse submergir simplesmente... É preciso manter-se à tona, e sempre. Era mais ou menos isso que o velho do retrato dizia, o velho de bigode branco e olhar feroz, o velho com que me acostumei junto aos móveis antigos, aos livros recobertos de pó, ao baú de quinquilharias da mulher que era a filha do velho do retrato.
Se tiveres necessidade de ir embora não te tolhas por minha causa. Talvez, por mero hábito da vida, continue a te escrever por algum tempo. Talvez minhas cartas abarrotem a tua porta de entrada, num volume inconveniente, frequente, até que mesmo querendo não consigas ignorar-me ali naqueles pequenos pedaços sem vida. Mas, no entanto, se persistires no teu silêncio – teu silêncio superior e absoluto! – certamente me vencerás. Não importará mais nem convicção, nem sensibilidade. Após haver capitulado, tudo que terei de fazer será partir emudecido. Mais até: terás ganho minha permanente admiração! Com teu silêncio, meu amigo, com a força abissal desse silêncio, terei aprendido o essencial que sempre me escapa...
Já estou muito longe daquela impressão de esmagamento. Em seu lugar, o que sinto é a enorme falsidade dessas emoções. Nada do que era, enfim nenhum lugar se reconhece. Seria possível que tudo tenha sido tão elusivo? Nunca houve nada, nem mesmo, ainda que parcamente, a imagem, porque todas as vezes em que a invoquei ou que lhe acreditei sentir, tudo que havia era o simulacro de gesso feito às pressas por minha percepção deformada, pueril, incompleta de vida e experiência. Reparando bem, descubro que não possuo nenhum desafeto no mundo, porque todos aqueles com quem me desentendi nada sabem verdadeiramente da minha contrariedade. A contrariedade (mais os passos dela) foi toda minha; eu a emulei, eu fiz com que ela crescesse e possuísse sentido, até mesmo o seu abismo está todo preso ao meu imaginário, não tendo ocorrido concretamente uma única vez. Fui tão longe na minha invenção que ela acabou por me engolir. Sou o que ela me permite ser e nenhuma outra coisa. Esta talvez seja a evidência mais triste de todas. Essa prisão cujo tempo, cujo cárcere não se completará. E mesmo que eu volte, que eu perceba, que sinta uma realidade alternativa, nela jamais poderei durar porque só possuo sentido nesse elemento mentiroso e dominante. Não haverá uma descida ao sopé da realidade, mas uma quebra da ilusão, temporária talvez, mas assim mesmo mortificante.
Meu amigo, meu amigo... estou envelhecendo... e secando ainda mais rápido do que envelheço, e não posso resistir a nada disso a não ser esperar, sabendo que o ponto final desta espera não me galardoará absolutamente nada. Nem por isso me sinto triste, nem por isso falo com amargura uma única vez. Nem por isso (seria hipócrita demais, até mesmo para mim) sinto estas coisas com resignação. Eu tartamudeio mais um pouco porque desconheço, falta-me, à guisa de tudo, um nome correto com que encerrar essa verdade atordoante e enorme parada à minha frente. Eis o motivo pelo qual te escrevo: dê-me um nome, uma palavra, uma taxonomia qualquer com que possa amansar essa hidra ferozíssima instalada ao pé de mim. Se me tens apreço, liberta-me ou abandona-me à minha sorte e parte.
Com a mais plena afeição, o teu amigo.


***

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Experimento: no café


Aprecio a cena. Desde a preparação da cena. Para depois então medi-la – ainda que silenciosamente, sem arroubo algum – no lugar secreto de sua invenção. Medi-la em suas nuanças, em cada um de seus retomados rituais até que, desdobrados uns sobre os outros, eles atinjam um significado simbólico complexo. E desta maneira, jungido a essa apreensão, tento construir a minha própria cena. Minha cena: uma fingida impostação de mim mesmo, representando os gestos que assim procurarei incorporar, e deles fazendo uma amálgama rumo ao autêntico local da enunciação. É preciso capturar cada detalhe, e repeti-los à luz das circunstâncias, e não apenas simular mas principalmente dissimular aquilo que se representa. A ocultação é uma arte, deveras. E suponho que a melhor maneira de pô-la em execução seja pela rotina (conseguida com árduos exercícios de manipulação) e pela auto-emulação do que se representa (acreditar no que se inventou é tão fundamental quanto o ato de inventar).

Observo-me, assim, sentado enquanto espero o café. Há pessoas em volta, algumas delas me podem ver e medir. Efetivamente, por se verem vítimas daquela indecente curiosidade sobre o alheio, há algumas que me julgam o quanto podem e se desdobram para ver melhor e ter mais o que concluir. Estou, pois, em posição de representar, consciente do posto e da medida dessa atuação. Tudo se dá de maneira bastante sutil. Eu sei disso e elas também. Preciso, por isso, agir com acuidade se quiser manter o público interessado, demorando-me aos seus olhos como objeto de saudável estudo público – mesmo sendo verdade que toda curiosidade seja infame e indecente. De qualquer forma, prossigo. O espaço para manobras corporais é muitíssimo reduzido. Começo a medir-me: os dedos que se insinuam no ar, o cruzamento das pernas num indicativo de comedimento perfeitamente seguro, e a cabeça, que pende em triunfo desdenhoso e sincero. Por essas mínimas concessões de postura – exceto pelo tronco, que deve permanecer ereto e nunca arqueado – se insinua todo um caráter, o vislumbre do espírito congenial, que não apenas se percebe, mas que fatalmente se desdobrará sobre tudo que lhe assiste em volta com escárnio inquisidor e quase irresistível. No cruzamento das pernas, por exemplo, vejo esse deslocamento imóvel em que me situo. A linha da minha perna esquerda sobre a da direita, o ângulo de um sapato com suas estrias brilhantes impressas no couro. Tudo isto em conjunto complexo, compõe o repertório dessa deliberada indolência que se conhece e se permite fazer olhar. A presença está ali, excessiva, depositada em meia dúzia de flexões musculares, que explicam quase integralmente a própria cena. E assim, eu mesmo me descolo desse papel que interpreto. Porque a repetição na qual ele se foi operando permitiu-me, por um mecanismo automático de meus nervos, colocar esse movimento sem atender a sua imediata realização. Assisto-o sendo feito, sem no entanto me incomodar com nada dessa performance. Aliás, é por causa dela, da performance, que sou assistido. Caso retorne a este café nos próximos dias, encontrando-me numa cena semelhante a esta, com estes mesmos vizinhos e habitués da casa, teremos outro estágio de interações, no qual o nível de interesse aumentará ou diminuirá, a depender dos elementos que eu venha a adicionar em minha próxima representação. Se eu conseguir ser incisivo, poderei assegurar uma condição de “distinção misteriosa”, mas se, por outro lado, exagerar nas esquisitices, serei uma espécie de bufão local, cuja familiaridade logo cairá na vulgarização pública, na pequena comunidade estabelecida naquele café.


***

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sem título

Simples como uma aparição, o objeto amoroso veio e partiu. A cena inteira parece não ter durado muito tempo. Em questão de quinze minutos, eu acho. Primeiro um olhar, um sorriso, novo olhar, e uma aproximação trêmula até a fuga. Praticamente igual a todo encontro amoroso. Estavam contidos ali a surpresa, o deslumbramento e a inquietação, nada de mais. Mas não sei o que houve – se o ter durado tão pouco, se o conhecimento imperfeito daquilo – que fez deste encontro um acontecimento inusual. Algo de extraordinário, talvez trágico para mim.

Depois, um segundo encontro. Este serviu para cimentar as coisas, consolidar o conhecimento suspeito, ainda irreal, mas suficientemente concreto para que aquilo parecesse viável. Ainda depois: o tato, o exercício dos sentidos, a pele, o odor da pele. E a lembrança difusa daquilo tudo que primeiro se perde, e depois vai voltando, macio e devagar, com uma nitidez atordoante. Pronto, agora já estou preso outra vez. De grilhões nos pés, eu posso chorar durante todo o caminho de volta.


***

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Ausência

Cidade de Vitória, 14 de agosto


Muitas lieder, melodias, canções sobre a ausência amorosa. E, entretanto, essa figura clássica, no Wether, não está presente. A razão é simples: ali, o objeto amoroso (Carlota) não se mexe; é o sujeito amoroso (Werther) que, num certo momento, se afasta. Ora, só existe ausência do outro: é o outro que parte, sou eu quem fica. O outro está em estado de perpétua partida, de viagem; é por vocação, migrador, fugidio; sou, eu que amo, por vocação inversa, sedentário, imóvel, à disposição, à espera, plantado no lugar, em sofrimento, como um pacote num canto obscuro da estação. A ausência amorosa vai apenas numa direção, e pode ser dita apenas a partir de quem fica – e não de quem parte: eu, sempre presente, constitui-se apenas diante de ti, sempre ausente. Dizer a ausência é desde logo postular que o lugar do sujeito e o lugar do outro não podem permutar; quer dizer: “Sou menos amado do que amo.”

Roland Barthes

Há tempos não sentia a ausência como dor. Como dor não de uma impossibilidade, que é quando acontece de a ausência ser primeiro uma rejeição e só então um afastamento, mas a dor de um sentimento correspondido e adiado, que no entanto se perderá na imensidão física do espaço. Sempre a ausência. E mesmo que confesse já haver me acostumado daquele outro jeito, isso que há agora me pareceu diferente de tudo o que fora antes. Agora, depois de tanto tempo, quando cansara-me esperar o que quer que fosse, é que sinto esse afago apropriado, ajustável ao meu, à equivalência de tantas coisas improváveis... Descubro, como o amante descobre no fascínio da primeira vez, a imagem dessa plenitude. Ou então, quando esse amante já se frustrou muito no passado, vê esse lugar, esse espaço, o objeto, como o horto tranquilizador onde tomará enfim seu descanso.

Mas cheio de figurações, todas ao cabo tão iguais, tidas a empréstimo de espíritos mais audaciosos e mais nobres que o meu, é que vou ter de descobrir logo a interdição havida entre mim e esse outro. Um obstáculo tão claro, tão certo, que a potencialidade da rejeição, pela primeira vez um obstáculo menor, acabará por crescer e tomar a si o controle de todo o intercurso. E tudo acontecendo naturalmente diante dos meus olhos, simplesmente assim, como uma catástrofe irresistível a qual mesmo consciente terei de consumar. Creio que esteja nisto toda a singularidade do que experimento. Caminho, justamente, a passos largos para o abismo cujo final imediato eu já posso ver. E não me detenho por nada, pois na desarticulação de pernas e braços e cérebro não há vontade individual que se oponha.

O que mais posso querer? Nada, só vou esperar, esperar por essa explosão inadiável e silenciosa.

Enquanto me afasto, vou acionando todos os sentidos dessa engrenagem complexa além de mim. Enquanto me afasto, confirmo o meu próprio papel de agente passivo dos fatos. Eu, desligado de mim, ajo por mero estertor, por uma vocação irremediável que estes fatos me assinalaram e da qual não poderei retroceder mais. O outro, o partidor, receberá meus desvarios e minhas interlocuções. O seu papel ativo está garantido pela forma como dará cada resposta, como conseguirá atuar de fora, livre do obliteramento que apenas eu terei de provar. Esse outro é o instigador, eu, o instigado. Assim mesmo, desempenharei sozinho quase todos os papéis. Esse grande drama será uma performance minha. Primeiro provocarei, então receberei, e interpretarei o que receber, e gozarei com isso, e sofrerei com isso. Daí, a narrativa, o conto amoroso esfalfado e incompleto... o discurso, sempre ele, que coligirei no meu desespero calmo. Idêntico a todas as outras vezes. Exceto por algo novo, por esse novo diferente: aqui, a ausência é uma dor, ela será a ausência encarnada... como a matéria de uma comunhão interrompida.



***

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Il sorriso aspro


Sentado em uma mesa de café, o mesmo café onde passo minhas tardes ociosas fingindo estudar, veio-me a mente o haver sonhado com ela. Lembrei disso justamente quando admirava a jovem de torso bonito que me servia naquele café. Parece que foi um sonho curto, sem muitos detalhes. Mas a sua presença nele, exatamente a presença que adorava tanto, era nítida e forte para me injetar algo como que um entusiasmo especial. Ela, naturalmente, sorria. Sorria do mesmo modo cálido e envergonhado como em todas as vezes que me encontrava. Era um sorriso de covinhas, não meramente inocente, mas ressentido da própria afetação de sentimentos que se lhe deixava escapar. Ressentia-se dele como se se tratasse de uma fraqueza impossível de evitar. Para mim, entretanto, era o que mais lhe venerava, essa mistura de fraqueza e pudor, e sobre tudo isso o orgulho mal disfarçado contido ali. Da minha parte, eu punha tanta convicção naquele sorriso que ainda não pude sequer desatá-lo da memória. Talvez nem queira mesmo desatar ou perder nada dele, e por isso nem chego a fazer algo para o dissolver porque persevera então a convicção na plenitude desse sorriso. E há de ser até que, se lhe encontrar agora, precisamente agora e apesar de tudo, de tudo que fiz e que não pude fazer, ela tornará a me sorrir daquele idêntico modo de tempos atrás. Creio nisso, e bastante, a ponto de entrever e sonhar esse sorriso tão mesmo da primeira vez.



***

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

C.F.Abreu: "O príncipe"



Não sei, até hoje não sei se o príncipe era um deles. Eu não podia saber, ele não falava. E, depois, ele não veio mais. Eu dava um cavalo branco para ele, uma espada, dava um castelo e bruxas para ele matar, dava todas essas coisas e mais as que ele pedisse, fazia com a areia, com o sal, com as folhas dos coqueiros, com as cascas dos cocos, até com a minha carne eu construía um cavalo branco para aquele príncipe. Mas ele não queria, acho que ele não queria, e eu não tive tempo de dizer que quando a gente precisa que alguém fique a gente constrói qualquer coisa, até um castelo.


Caio Fernando Abreu.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Dentro de mim

Quantos equívocos neste dia. Meus sentidos parecem agir ao desacordo de mim. Nada funciona direito, nada que procuro ver ou antecipar está certo. E o que fazer agora, que tipo de remédio se pode pôr nisto que no fim não seja um jeito inútil de voltar ao antigo estado de coisas? Está tudo aqui, brilhando para mim, evidentemente demais para que eu tente uma manobra de ocultação.

*
Tenho de experimentar uma outra vez as mesmas provações numa variação interminável sobre mim mesmo. Estou tão exausto disso, tão exausto de cair nos mesmos abismos, de sentir ter aprendido tão pouco. No fim, venho parar no mesmo paroxismo ingênuo do princípio que passei rejeitando tanto tempo.

*

As coisas têm mais que dois lados, mais de duas versões é verdade. O problema está em mim, que não as consigo enxergar nem imaginar o que sejam. Padeço dessa falta de imaginação crônica para as coisas complexas da vida. Sou não meramente simples, mas um simplório que desconhece os termos do próprio coração.


***

sábado, 29 de agosto de 2009

O Coração

Ah, o que sei, qualquer outro pode saber – meu coração é meu e de ninguém mais.

Goethe


Recordara-me, apenas agora, uma passagem do Werther que me convém bastante. Apesar de o haver lido muitas vezes, não foi por mim mesmo, mas pela indicação que dele faz Barthes no seu Fragments d’un discours amoureux na contrafação enfrentada pelo sujeito amoroso. Funcionaria assim: o sujeito amoroso, possuindo uma sensibilidade acurada e da qual ele próprio se orgulha, é apenas notado pelo objeto, o objeto amoroso, nos termos de sua força intelectual. Essa admiração que lhe é volvida incomoda-o profundamente, porque pressupõe um equívoco difícil de ser desfeito no trâmite afetivo. Falam linguagens diferentes, sujeito e objeto, e suas expectativas agem em desacordo permanente. Amam-me pelo meu espírito, e não por meu coração, que no entanto é tudo de mais valioso para mim e está no quinhão da minha entrega.

A disjunção da linguagem é, por isso, o que aniquila mais o jovem Werther... a incompreensão do outro pelo discurso, pela sua confissão... pela natureza final da entrega que ele não poderá consumar. Eis o óbice de tudo: querem de mim o que para mim próprio não possui valor. Enquanto isso, o prêmio maior que é meu interior, meu coração tantas vezes reservado fica sem destino. Mesmo que o ponha à porta do outro, ele é devolvido ou deixado lá, esquecido ao léu como uma coisa qualquer. Afinal, a linguagem do sujeito amoroso (assim, a minha própria linguagem) não penetra nada ao outro, apenas circula por um pouco no ar em que foi liberado até fenecer em algum lugar, fria e sem devolução.

O que aborrece o sujeito amoroso é essa percepção de que sua principal fonte de energia foi desperdiçada para sempre. A partir do ponto em que o outro não me experimenta, em que tenho de regressar com esse presente nas mãos, intacto e murcho, desvela-se uma tensão mais funda que a da rejeição ampla e irrestrita. Tem-se aqui a figura da incompreensão, que traz implícita duas outras condições: a de que houve uma mediação, a conversa como plano interlocutório de experimentações, e a partilha de afetos, de substância fluida entre o sujeito e o objeto, como seria no culminar da própria relação. Mediante estas condições, estas sub-figuras, é que o fracasso do discurso assume uma proporção realmente dolorosa – eu não fui rejeitado sumariamente, mas por minha incapacidade de comover, de articular no outro o entendimento legível do meu amor.

A incapacidade da fala, a incapacidade da comoção pela fala. Se meu coração fosse suficientemente forte, se ele ao menos aceitasse uma coligação mais cerebral desta vez. Mas ele prefere os próprios métodos, e sofre por isto. Sofre como um aleijão de nascença a culpa que não pode expiar.


***

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Tudo aquilo em que acredito, em que eu penso, se pulveriza quando estou perto de ti. Estando tu presente ou não.

...

Ai de mim. Ahimè!



***

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

(Dis)trair

Talvez eu crie tudo isso. Manipulo as circunstâncias, estabeleço conectivos entre elas, estipulando sentidos muito próprios que no fim nada dizem sobre o que se deveria dizer. Por isso amo melhor quando amo sozinho. Imaginando, devaneando anos a fio até me esquecer de tudo isso. “Artífice de meus mundos”, eis o que sou. Pouco importa se eles sejam chatos e opacos como um prato de porcelana ruim. Pode ser, ao contrário, uma falta de tudo o que me impele a resolver criar preenchimentos, como guloseimas feitas ao espírito anêmico. Madeleines de realidade pinçadas da imaginação.

Ilusório ou não, dane-se. Vale-me ao fim é que esse amor está aqui, arranhando no flanco sensível do peito. Depois de feita a constatação, porém, acredito na vantagem de drená-lo com afinco e reduzi-lo a sua primeira dimensão. Depois voltarei ao assunto. E então um novo aprofundamento e talvez mais um arroubo ou dois.

Para isso aquele tantinho misérrimo de amor-próprio ainda há de me servir.

E depois, há tantos filtros possíveis. Tantas outras fontes de laceração que o distrair-me não me faltará. E tantos amigos e interlocutores (Amiel! Flaubert! Goethe! Chateaubriand!), que é impossível estar só.



***

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Projeções

Con qué tristeza miramos
un amor que se nos va...


Acostumei-me demais, cedo demais, aos amores supérfluos, às melífluas afeições. E nada do que tenho vivido me ajuda a lidar com essa novidade estranha. Essa como que espécie de doença calma vai me ferrando os ossos, e devagar. Ainda não entendo. Sempre desconfiei dos arroubos fáceis que moram debaixo das grandes paixões, mas quanto ao surrupio sem vestígios de uma volúpia curta e delicada, aí eu perco minhas medidas de tudo e fico inerme.


Artífice de meus mundos, de meu sentir. Era assim que me conhecia até bem pouco. Em mim mesmo se deslindava o universo das dores, a pequena tragédia vivida de fantasias e personagens irreais. Com eles eu sabia tratar. Mas agora isto, isto que desconheço e me arrefece tanto. Não sei como ponderar; se devo me atirar o quanto antes, ou lutar contrariamente, guardando-me do que for. Um sentimento sem nome, assustador demais e estranho para que eu lhe conceda um nome.


Surpreendentemente, ele parece ter ido antes que eu lhe pudesse ter acolhido. Não há desapontamento, não há frustração alguma. Apenas uma imensa vaga do que não foi, e que, apesar disso, maltrata-me na vacância de não ter sido. Sinto esta ausência com mais força que a todo um repertório extensamente vivido. Ela é mais poderosa, me perfura mais. Estou pois aqui, recuperando seus sinais em busca de uma presença, de uma permanência.


E depois, oscilo tanto que nem sei mais o que pensar. Durante o dia canto a pé pelas ruas. Não importa o quanto adoeço, nem tampouco a aparência plúmbea da tarde, o vento áspero-cortante e o frio. Por absoluta teimosia, pela convicção de quem ama e não enxerga o além, eu canto pelas ruas desta cidade estéril e invejosa. Praticamente não durmo. Apenas pauso o cérebro entre um vislumbre e outro do objeto amoroso, que no entanto nunca se revela por inteiro.


Não sei o que pensar. (Com efeito, eu nunca sei ao certo o que pensar, como entrever o outro.) Mas é imperioso que eu entenda, que me desmantele no processo de o conhecer e o desvendar. Mesmo que isto seja inútil, completamente inútil.

Tenho, por outro lado, a vontade de dizer. De fazer, mesmo que alhures, a confissão. Decerto, o poder encantatório daquelas três palavras juntas poderia lavar-me a alma. Penso nisto o dia todo – enquanto entoo por cima meu canto a pé – e chego a ensaiar uma saída, algo qualquer, como um escape. No fim, sei que não tenho chances, sei que estou liquidado. E que morro sozinho por um desejo sem retorno nem comunhão.



***

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Annita Malufe: "um dia mais longo..."


um dia mais longo um dia mais curto
a cor deste dia que se estende se alonga esta luz
deste único dia o que faz deste dia este e não outro
um grau exato na extensão dos dias
repito e repito não serão os mesmos
dias daqui olhando no quintal de sobreaviso
a luz que se prolonga distanciando os dias
esses dias longos sem você cada dia a lembrança ganha
um novo matiz como se a imagem fosse sempre

outra sempre refeita a sua imagem a sua voz
um timbre e palavras que não me lembrava até
ontem a cor de cada dia é diferente um matiz
a mais ou a menos poderíamos enumerar os graus

as nuances dos dias em miniaturas minuciosamente
esculpidas poderíamos retomar a cada vez uma
linha um matiz um timbre uma voz
e a cada dia outra a cada dia uma outra voz uma nova

cor este espaço que se inicia a cada vez e diferente



Annita Costa Malufe
in: Como se caísse devagar, Ed. 34, p. 44.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

De nuevo, mi vanidad



Cierro los ojos y puedo ver, sonriente, su rostro enmarcado en la luz, terno y limpio, sin marcas desde su espléndida juventud. En esa visión antegozo y sufro siempre la presencia de corta, interrumpida, por el disfrute que no puedo alcanzar. Y sigo, en una razonable provisión para la contemplación, la preparación del mi próximo enamoramiento – que tiene todo para ser, por los rasgos pasados, similares o incluso de un castigo mayor.

Deseo ante todo lo que no puedo tener.



***

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Nulla res

[Nota de 12 de julho]


Estou sentado há mais de três horas na mesma poltrona. Ouve-se muito baixinho uma música, uma ária realmente inaudível, como num sussurro, quase que ciciando as paredes do cômodo estreito. Tenho, pois, numa mão, o controle remoto por meio do qual posso ir repetindo a mesma música sem nunca ter de me mover. Na outra mão, uma taça de vinho que vou repondo gradualmente. Na sala, a única iluminação irradia da chama trêmula da vela que em breve se há de apagar. Faço hora e mais nada. E aquela posição na penumbra serve a me lembrar o vazio triste desse estar aqui, sem expectativas, sem dívidas com o futuro, durando apenas e muito penosamente. Tento procurar algo dentro das minhas lembranças, revolvendo talvez uma invocação de alegria, ou uma saudade pungente, algo como que remanescente da minha caderneta de afeições. Mas também não há nada; meus ressentimentos, minhas paixões, minhas dores perderam-se todos. É quase como se eu não sentisse mais. Ou ainda pior: é quase como se eu nunca tivesse sentido deveras. Para me certificar disso invoco todos os meus monumentos de pedra, tudo o que um dia houve de mais possante sobre meu coração. E eis que, uma outra vez, nada me revela coisa alguma. De repente tudo assume uma inclinação à farsa, como se eu meramente as tivesse inventado, alimentado e depois, por minha própria mão, destruído e posto fora do meu campo de sensações. Então, levantando um pouco de leve a máscara do burlesco, ali está uma acusação ignominiosa, uma inclinação perversa, um vício pelo jogo... como se o viver jamais fosse outra coisa que mero hábito de experimentação. E a relação com as pessoas, sucedidas com mais ou menos arte, uma apetência inveterada pela observação e pela conquista sem escrúpulos. Um rosto vincado de iniquidades, de maldade, de acerbos pensamentos que no entanto não me apavora e nem me surpreende. Olhando para ele, sinto uma familiaridade de há séculos e até um certo fascínio. Entretanto, não tenho mais que um obliteramento de meus sentidos mais internos. Continuo sentado, passando as horas. Aguardando uma novidade outra da vida. Um jogo menos igual, ou então um outro bocado da variedade do existir, dessa inserção afadigada do estar no mundo que me consomem os anos de esperanças e de rememorações, todas ao fim de um esgar exausto.



***

domingo, 26 de julho de 2009

"Vingança"

Lá na beira do roçado, onde a tristeza não vem
Eu vivia sossegado com a viola do meu lado
Mais feliz do que ninguém
Numa festa no arraiá vi dois óio me olhá
Decidi no improviso, ela me deu um sorriso
E comigo foi morar

Nunca mais fui cantador e a viola descansou
Eu vivia pra cabocla, eu vivia pra cabocla
Só pensava em meu amor
Nunca fui feliz assim, eu mesmo disse pra mim,
Pensei que a felicidade, pensei que a felicidade
Não pudesse ter um fim

Mas um dia a malvada foi-se embora e me esqueceu
Com um caboclo decidido, Juca Antônio conhecido
Cantador mais do que eu
Já cansado de esperar, desisti de procurar
A cabocla que um dia levou minha alegria
E eu jurei de vingar

Numa festa fui cantar e a mulata tava lá
Juro por Nossa Senhora, juro por Nossa Senhora
Que a cabocla eu quis matar
Mas fiquei sem respirar quando vi ela dançar
Ela tava tão bonita, ela tava tão bonita
Que esqueci de me vingar




Francisco Mattoso & José Maria de Abreu

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Outro torneio



Passo tanto tempo recompondo minhas próprias lembranças que ainda me surpreendo por encontrar um material novo sobre elas. Talvez ainda mais quando reparo que estas lembranças novas venham de uma vivência aglutinada no exterior, de que efetivamente vivo com alguma concretude sobre meu corpo e meus sentidos.
Esta sensação, que quase não experimento de verdade, me topa agora, quando mal tenho tempo para viver a novidade que então quererei guardar. Daí que me obrigo escolher (e, ah, como odeio ter de escolher) entre viver e lembrar. Convém, pois, a passagem leviana da existência, por um completo deixar-se ir, ou ao invés disso a compilação cronística, joeirando sempre com acuidade o que seria digno de nota e de registro? Há dias em que fervo os miolos pensando nisso. E padeço, com toda a indulgência do bom ocioso, a incerteza dessas dúvidas infantis.

Não se pode perguntar a ninguém se é preferível viver, ou selecionar da própria vida episódios como recortes úteis no confeccionar de uma narrativa coerente. Ainda assim, reconhecendo o absurdo inútil disto, eu me vou permitindo tocar as coisas desse modo, caindo uma e outra vez naquilo que o vulgo gosta de chamar realidade.

Um tédio de tudo, eis o que é. Mas de tal maneira forte, que tudo aquilo que já foi visto, planejado, sentido, não contêm praticamente nada que me traga o alívio de pensamentos melhores. E assim, exausto, eu me debato com essa incapacidade de me deslocar... Não, não, não é nada disto!


Tentemos de um outro modo.



***

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Ontem



Ontem eu me senti hesitante mais uma vez. Hesito sempre que lembro. E o tempo, preso ao meu tornozelo como um peso de chumbo, me fez retroceder um poucochinho a outros anos passados. Tudo isto anda bem atado junto de mim, e não ignoro que às vezes essas lembranças tolas, embaçadas, me forçam a circunvoluções que eu já me esquecera de mover.

Daqui há um ano, completar-se-ão vinte desde que conheci esse meu velho amigo. No entanto, não posso contar nem a metade disso de quando ainda mantínhamos alguma amizade. Praticamente não lhe conheço mais. Talvez não lhe repare quem seja caso nos encontremos na rua.

De qualquer maneira, nunca logrei conhecer ninguém, nem mesmo esse amigo, esse único amigo feito no tempo mais áspero da vida que foi minha infância. Também não permiti, a quem quer que fosse, conhecer-me honestamente. E por isso substituí toda forma autêntica de conhecimento pela ligeireza da intuição, esta sim, muito mais duradoura.

Éramos empedernidos, orgulhosos, inatacáveis. Talves ele fosse mais do que eu. Ou pelo menos era isso que eu via, por inveja, sempre que lhe media as virtudes. Invejava-lhe em tudo, como da sensação das coisas mais triviais, mas cujo sabor eu não podia saber. A sua vida parecia tão mais fácil, tão mais ordenada... e eu, por não possuir nada disso, e nem ter esperança de vir a possuir, tinha de fingir ter ou sentir.


Mas o tempo foi crescendo, nós fomos passando, e hoje não saberia que coisa poderia lhe dizer. Tenho certeza de que não nos entenderíamos (ainda que, é verdade, jamais nos entendemos em coisa alguma), e também não haveria motivo, razão, nem nada superficial o bastante para nos manter presos a cinco minutos de conversação. (Nem a polidez, nem a polidez... aquela armadura tão fácil que ele tomava contra tudo, até mesmo, e principalmente, para me sabotar.)


Com o tempo, nessa distância imensurável do tempo, é provável que ele tenha se abrandado, tornando-se uma pessoa mais simples, quase sossegada. Porque eu me lembro, desde crianças, ele já era assim, talhado para ser assim. Mas apesar disso, dessa obviedade ultrajante dos fatos remotos, eu continuo a alimentá-lo como se a única coisa que ele pudesse ter se tornado hoje não é nada menos que um titã. Ele-titã, enquanto eu pobre e miserando, o maior desgarrado do mundo...


***

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Conversações



Por certo tempo eu tive um amigo com quem passava muitas horas conversando, e durante essas conversas sempre falávamos sobre as nossas aflições pessoais mais constantes, sobre aquilo que realmente gostaríamos de fazer contra o que tínhamos de fazer naquele momento sem outra escolha. (Ainda que na verdade soubéssemos que a coisa toda não fosse bem daquele jeito). Na época eu seguia para meus anos finais do curso de direito e ele iniciava um mestrado em literatura, e parece que tanto eu quanto ele decidimos, durante um desatino qualquer de que nos arrependíamos, que aquelas seriam as melhores escolhas feitas. Eu sei, é desse modo que todo mundo faz suas próprias escolhas, julgando fazer o que é certo ainda que se arrependa depois, e por isso não há muito sobre o que reclamar. Mas, bem, apesar de tudo, a verdade é que íamos nos conformando com aquilo – sobrevivendo, pelo menos. A nossa queixa de verdade era sobre o que não fazíamos, sobre o que não líamos quase ou quando sim, apenas muito menos do que gostaríamos de ler. De vez em quando trocávamos sugestões, principalmente literárias, ou então, como aconteceu uma vez, líamos um mesmo livro na mesma época para ir conferindo as impressões ao longo da leitura. Isso tudo era muito prazeroso e me permitia, particularmente a mim, confinado num ambiente que não me servia, extravasar a necessidade de consumir algum tipo de arte. Lógico que eu queria mesmo era escrever, mas para isso não me sentia nem um pouco competente. Ainda hoje, quanto a esta incompetência, duvido bastante que isso mude. Mas não é essa a parte que importa, pois, produzir ou consumir, no fundo trata-se duma distinção que é mesmo uma coisa estúpida ou falsa. O que quero falar é sobre o contato duradouro com esse universo; universo de sensibilidades aguçadas, desordem primordial, intelecto excitável, de um plano de criações. Era para ele que sempre seguíamos de algum jeito, por algum motivo. Não era unicamente uma questão de fuga, mas, talvez, de sentir melhor a própria matéria instável que nos circundava. Até posso falar, sem pretensão nenhuma de me achar especial, de uma sensação compartilhada de inadequação pela posição que ocupávamos, esta sim, sem a menor escolha. Queríamos mesmo era nos evadir. Mudar de cidade, de hábitos, de emprego, de amigos. A convicção de inadequação ia crescendo tanto que existir consistia em viver sufocado. E para isso, a literatura fazia as vezes de canal conciliador, de restauração diária, neutralizando a constância daquela perturbação a um alento mais dissipador. Para mim, especialmente, a busca estética e a expansão de minha própria percepção cognitiva significavam uma forma de estabilização contra meus acessos depressivos, pois aos poucos, muito mais que entender a natureza fecunda daqueles acessos, fui me interessando pela forma deles, pela linguagem ali instalada e no controle criativo que talvez detivesse se os convertesse em outra coisa qualquer, como numa figura narrativa impressionista. Foi a partir daí que me libertei melhor da auto-remissão, já não importava mais nenhum julgamento moral nem qualquer coisa exterior que tentasse inocular à minha maneira de sentir as emoções; agora elas serviam a um fim determinado, caindo daquele primeiro propósito para ocupar o papel transitório que vinha lhes dar. Assim, todas as vezes que me lembro dessa função, não meramente restauradora mas autêntica reposição de sentido da minha realidade, recordo também essas conversas antigas com aquele amigo que nem encontro mais. Ele dizia algo sobre não conseguir, absolutamente não suportar a vida sem um acompanhamento, ou um filtro, dado pela arte e pela literatura. Não sei se concordo, ou então ainda melhor: se absorvo completamente esta ideia. Mas o que sinto, sobretudo agora que me encontro muito deslocado das perspectivas daquele tempo, é que a atividade reiterada do investigador (histórico e social, simultaneamente agente e agenciador de ambos) continua a deixar lacunas enormes sobre a minha própria sensibilidade intelectual. Meio acomodado, acostumando-me a não provocá-las para não me ferir, venho deixando-as, como questão em suspenso, sempre para mais tarde. É claro que sucessivamente mantenho a leitura de algum romance ou de uma crítica literária, qualquer coisa que assim, supérflua, seja capaz de aliviar os rigores das leituras especializadas que me consomem o dia inteiro. Também, tenho medo de me mutilar caso deixe de cultivar interesses paralelos, mesmo que por pouco tempo, e mesmo que isso me obrigue abdicar da dedicação exclusiva que tais leituras exigem. É antes uma questão de prevalência espiritual, que deve se expandir e jamais se confinar, o que me impõe esse sistema de aprendizado tão difícil de administrar. Seja como for, volto à instabilidade, à pergunta inicial sobre aquilo que realmente gostaria de fazer. E tão sem resposta quanto na partida, eu somente sinto que estou mais cansado e com os movimentos mais lentos, farto talvez de trazer uma carga que reconhecerei ser inútil no final das contas.



***

sábado, 4 de abril de 2009

É tão alto aqui. E tão frio também. Nada que me traga um punhado de ti, nem mesmo um bocadito apenas. E essa ausência prolongada parece ter secado alguma coisa que não sei bem o que é. Simplesmente há algo que não funciona mais da mesma maneira. Está diferente, é isso.

E quando hás de voltar? Ah, então não voltarás mais? Foste embora para sempre? Sempre? Diabo de situação estranha. Descofio que não entendo nada disto. Em todo o caso, hei de esperar. Coloco aqui uma pedra na qual me sentarei e pronto. Espero.

Já é chegada a noite e nada de ti. Teria medo de que pudesses não vir, sendo tão tarde. Mas te conheço bem, e há tantos anos... seria impossível que me abandonasses hoje. Não, não faria sentido. Esperarei um pouco mais.

Enquanto te espero, recordo a maciez da tua presença... o sentido claro, maravilhoso de quando estás aqui. E toda a envergadura do sorriso, toda a bonomia cabida dentro dele, e uma alegria que eu mesmo não tenho mas que dele me contamina a cada vez... a cada vez que te espero.

Certamente é por isto que te espero, porque te esperar me completa, me permite sentir qualquer ligação, qualquer coisa assim de intermédio entre nós dois... qualquer coisa inexistente, mas que a minha abstração faz abastar e me tranquiliza como uma canção barroca ao fim da noite.


***

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Tristesse

Dinis era triste como outros são bonitos ou feios. Antes fosse mau, porque a maldade é uma deliberação da vontade, uma reação à ferida própria dos grandes amantes. A tristeza, quando se apresenta de raiz, provoca danos irreparáveis. Porque a tristeza tem um único antídoto de sobrevivência, que é a crueldade.

Inês Pedrosa




Ah sobriedade de todas as coisas, sobriedade matizada de azul e tons de cinza. Sobriedade que não posso mais recuperar, que nem me reconhece mais e nem eu a ela por lhe vir passar. Mas há coisas assim, por demais irrecuperáveis, que me vão amortecendo e dissipando um pouco após todos os dias.
É por causa desse amortecimento, ou dessa dissipação, que me vou esquecendo dos dias. Um dia posto sobre outro, e mais outro. Até não haver mais nenhum a consumir. Exausto de dias, e os dias a se exaurirem de mim.
Quanto acúmulo de pensamentos tristes, e uma deformação da função natural das coisas, uma deformação do que era antigamente a ponto de eu me esquecer de como ela chegou a ser o que é agora. E esse maneira estranha de resistência, pusilânime, esgarçada desde sua raiz. Esse jogo de contrários onde exponho tudo na tentativa de ocultar, de velar, anulando talvez um estado impossível de se corrigir.
Amargurando-me vezes sem conta nessa tristeza nativa é que também acabo bruto, vil, e ainda mais fraco que no dia em que comecei. Nesses anos todos, vilipendiei-me por vontade própria. Era nisso que extraía meu verdadeiro prazer, conhecendo demoradamente cada circunstância, cada movimento, cada deliberação das engrenagens dessa tristeza que ao cabo me levava inteiro.
Ah sobriedade das coisas mortas, de tempos idos, élan de tudo isso em que não estou. E eu, tolo, a ensaiar maneiras de bravura que não resolveram de nada. Eu, sempre e mil vezes tolo, a projetar a redenção desta sorte na litania dos sonhos idos...


***

Escasseia o dia, e assisto as derradeiras notas de calor junto do espectro de luz irem embora. Sem ruídos, sem melodia a escuridão vai crescendo, tomando conta, forrando meus olhos de penumbra e mansidão. Ela me faz lembrar tantas coisas, ela me apavora tanto, e assim mesmo me alenta dizendo que vai passar, que tudo vai passar e em breve deixarei este corpo, e com ele essa superveniência de pensamentos ruins, e tristes, e longos e oblíquos. A penumbra suavíssima desses minutos me instrui calmamente na esperança do gozo e é assim que posso adormecer.
Parece não importar tanto que coisas se tenham passado, que eu tenha passado e, finalmente, as pessoas todas que por mim passaram o terem feito sem preocupação nenhuma desse trânsito melindroso. Aqui, colocado no alto de um vale, eu assisto a noite desenrolar-se pouco a pouco sobre a imensidão. Olho sorridente para tudo isso, olho sem receios, sem ressentimento algum.