Flaubertianas
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Epistolário: tempo ocioso
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Experimento: no café
Observo-me, assim, sentado enquanto espero o café. Há pessoas em volta, algumas delas me podem ver e medir. Efetivamente, por se verem vítimas daquela indecente curiosidade sobre o alheio, há algumas que me julgam o quanto podem e se desdobram para ver melhor e ter mais o que concluir. Estou, pois, em posição de representar, consciente do posto e da medida dessa atuação. Tudo se dá de maneira bastante sutil. Eu sei disso e elas também. Preciso, por isso, agir com acuidade se quiser manter o público interessado, demorando-me aos seus olhos como objeto de saudável estudo público – mesmo sendo verdade que toda curiosidade seja infame e indecente. De qualquer forma, prossigo. O espaço para manobras corporais é muitíssimo reduzido. Começo a medir-me: os dedos que se insinuam no ar, o cruzamento das pernas num indicativo de comedimento perfeitamente seguro, e a cabeça, que pende em triunfo desdenhoso e sincero. Por essas mínimas concessões de postura – exceto pelo tronco, que deve permanecer ereto e nunca arqueado – se insinua todo um caráter, o vislumbre do espírito congenial, que não apenas se percebe, mas que fatalmente se desdobrará sobre tudo que lhe assiste em volta com escárnio inquisidor e quase irresistível. No cruzamento das pernas, por exemplo, vejo esse deslocamento imóvel em que me situo. A linha da minha perna esquerda sobre a da direita, o ângulo de um sapato com suas estrias brilhantes impressas no couro. Tudo isto em conjunto complexo, compõe o repertório dessa deliberada indolência que se conhece e se permite fazer olhar. A presença está ali, excessiva, depositada em meia dúzia de flexões musculares, que explicam quase integralmente a própria cena. E assim, eu mesmo me descolo desse papel que interpreto. Porque a repetição na qual ele se foi operando permitiu-me, por um mecanismo automático de meus nervos, colocar esse movimento sem atender a sua imediata realização. Assisto-o sendo feito, sem no entanto me incomodar com nada dessa performance. Aliás, é por causa dela, da performance, que sou assistido. Caso retorne a este café nos próximos dias, encontrando-me numa cena semelhante a esta, com estes mesmos vizinhos e habitués da casa, teremos outro estágio de interações, no qual o nível de interesse aumentará ou diminuirá, a depender dos elementos que eu venha a adicionar em minha próxima representação. Se eu conseguir ser incisivo, poderei assegurar uma condição de “distinção misteriosa”, mas se, por outro lado, exagerar nas esquisitices, serei uma espécie de bufão local, cuja familiaridade logo cairá na vulgarização pública, na pequena comunidade estabelecida naquele café.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Sem título
Simples como uma aparição, o objeto amoroso veio e partiu. A cena inteira parece não ter durado muito tempo. Em questão de quinze minutos, eu acho. Primeiro um olhar, um sorriso, novo olhar, e uma aproximação trêmula até a fuga. Praticamente igual a todo encontro amoroso. Estavam contidos ali a surpresa, o deslumbramento e a inquietação, nada de mais. Mas não sei o que houve – se o ter durado tão pouco, se o conhecimento imperfeito daquilo – que fez deste encontro um acontecimento inusual. Algo de extraordinário, talvez trágico para mim.
Depois, um segundo encontro. Este serviu para cimentar as coisas, consolidar o conhecimento suspeito, ainda irreal, mas suficientemente concreto para que aquilo parecesse viável. Ainda depois: o tato, o exercício dos sentidos, a pele, o odor da pele. E a lembrança difusa daquilo tudo que primeiro se perde, e depois vai voltando, macio e devagar, com uma nitidez atordoante. Pronto, agora já estou preso outra vez. De grilhões nos pés, eu posso chorar durante todo o caminho de volta.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Ausência
Muitas lieder, melodias, canções sobre a ausência amorosa. E, entretanto, essa figura clássica, no Wether, não está presente. A razão é simples: ali, o objeto amoroso (Carlota) não se mexe; é o sujeito amoroso (Werther) que, num certo momento, se afasta. Ora, só existe ausência do outro: é o outro que parte, sou eu quem fica. O outro está em estado de perpétua partida, de viagem; é por vocação, migrador, fugidio; sou, eu que amo, por vocação inversa, sedentário, imóvel, à disposição, à espera, plantado no lugar, em sofrimento, como um pacote num canto obscuro da estação. A ausência amorosa vai apenas numa direção, e pode ser dita apenas a partir de quem fica – e não de quem parte: eu, sempre presente, constitui-se apenas diante de ti, sempre ausente. Dizer a ausência é desde logo postular que o lugar do sujeito e o lugar do outro não podem permutar; quer dizer: “Sou menos amado do que amo.”Roland Barthes
Mas cheio de figurações, todas ao cabo tão iguais, tidas a empréstimo de espíritos mais audaciosos e mais nobres que o meu, é que vou ter de descobrir logo a interdição havida entre mim e esse outro. Um obstáculo tão claro, tão certo, que a potencialidade da rejeição, pela primeira vez um obstáculo menor, acabará por crescer e tomar a si o controle de todo o intercurso. E tudo acontecendo naturalmente diante dos meus olhos, simplesmente assim, como uma catástrofe irresistível a qual mesmo consciente terei de consumar. Creio que esteja nisto toda a singularidade do que experimento. Caminho, justamente, a passos largos para o abismo cujo final imediato eu já posso ver. E não me detenho por nada, pois na desarticulação de pernas e braços e cérebro não há vontade individual que se oponha.
O que mais posso querer? Nada, só vou esperar, esperar por essa explosão inadiável e silenciosa.
Enquanto me afasto, vou acionando todos os sentidos dessa engrenagem complexa além de mim. Enquanto me afasto, confirmo o meu próprio papel de agente passivo dos fatos. Eu, desligado de mim, ajo por mero estertor, por uma vocação irremediável que estes fatos me assinalaram e da qual não poderei retroceder mais. O outro, o partidor, receberá meus desvarios e minhas interlocuções. O seu papel ativo está garantido pela forma como dará cada resposta, como conseguirá atuar de fora, livre do obliteramento que apenas eu terei de provar. Esse outro é o instigador, eu, o instigado. Assim mesmo, desempenharei sozinho quase todos os papéis. Esse grande drama será uma performance minha. Primeiro provocarei, então receberei, e interpretarei o que receber, e gozarei com isso, e sofrerei com isso. Daí, a narrativa, o conto amoroso esfalfado e incompleto... o discurso, sempre ele, que coligirei no meu desespero calmo. Idêntico a todas as outras vezes. Exceto por algo novo, por esse novo diferente: aqui, a ausência é uma dor, ela será a ausência encarnada... como a matéria de uma comunhão interrompida.
***
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Il sorriso aspro
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
C.F.Abreu: "O príncipe"
Não sei, até hoje não sei se o príncipe era um deles. Eu não podia saber, ele não falava. E, depois, ele não veio mais. Eu dava um cavalo branco para ele, uma espada, dava um castelo e bruxas para ele matar, dava todas essas coisas e mais as que ele pedisse, fazia com a areia, com o sal, com as folhas dos coqueiros, com as cascas dos cocos, até com a minha carne eu construía um cavalo branco para aquele príncipe. Mas ele não queria, acho que ele não queria, e eu não tive tempo de dizer que quando a gente precisa que alguém fique a gente constrói qualquer coisa, até um castelo.
Caio Fernando Abreu.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Dentro de mim
As coisas têm mais que dois lados, mais de duas versões é verdade. O problema está em mim, que não as consigo enxergar nem imaginar o que sejam. Padeço dessa falta de imaginação crônica para as coisas complexas da vida. Sou não meramente simples, mas um simplório que desconhece os termos do próprio coração.
sábado, 29 de agosto de 2009
O Coração
Ah, o que sei, qualquer outro pode saber – meu coração é meu e de ninguém mais.
Goethe
O que aborrece o sujeito amoroso é essa percepção de que sua principal fonte de energia foi desperdiçada para sempre. A partir do ponto em que o outro não me experimenta, em que tenho de regressar com esse presente nas mãos, intacto e murcho, desvela-se uma tensão mais funda que a da rejeição ampla e irrestrita. Tem-se aqui a figura da incompreensão, que traz implícita duas outras condições: a de que houve uma mediação, a conversa como plano interlocutório de experimentações, e a partilha de afetos, de substância fluida entre o sujeito e o objeto, como seria no culminar da própria relação. Mediante estas condições, estas sub-figuras, é que o fracasso do discurso assume uma proporção realmente dolorosa – eu não fui rejeitado sumariamente, mas por minha incapacidade de comover, de articular no outro o entendimento legível do meu amor.
A incapacidade da fala, a incapacidade da comoção pela fala. Se meu coração fosse suficientemente forte, se ele ao menos aceitasse uma coligação mais cerebral desta vez. Mas ele prefere os próprios métodos, e sofre por isto. Sofre como um aleijão de nascença a culpa que não pode expiar.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
...
Ai de mim. Ahimè!
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
(Dis)trair
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Projeções
Con qué tristeza miramos
un amor que se nos va...
Tenho, por outro lado, a vontade de dizer. De fazer, mesmo que alhures, a confissão. Decerto, o poder encantatório daquelas três palavras juntas poderia lavar-me a alma. Penso nisto o dia todo – enquanto entoo por cima meu canto a pé – e chego a ensaiar uma saída, algo qualquer, como um escape. No fim, sei que não tenho chances, sei que estou liquidado. E que morro sozinho por um desejo sem retorno nem comunhão.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Annita Malufe: "um dia mais longo..."
um dia mais longo um dia mais curto
a cor deste dia que se estende se alonga esta luz
deste único dia o que faz deste dia este e não outro
um grau exato na extensão dos dias
repito e repito não serão os mesmos
dias daqui olhando no quintal de sobreaviso
a luz que se prolonga distanciando os dias
esses dias longos sem você cada dia a lembrança ganha
um novo matiz como se a imagem fosse sempre
outra sempre refeita a sua imagem a sua voz
um timbre e palavras que não me lembrava até
ontem a cor de cada dia é diferente um matiz
a mais ou a menos poderíamos enumerar os graus
as nuances dos dias em miniaturas minuciosamente
esculpidas poderíamos retomar a cada vez uma
linha um matiz um timbre uma voz
e a cada dia outra a cada dia uma outra voz uma nova
cor este espaço que se inicia a cada vez e diferente
Annita Costa Malufe
in: Como se caísse devagar, Ed. 34, p. 44.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
De nuevo, mi vanidad
Cierro los ojos y puedo ver, sonriente, su rostro enmarcado en la luz, terno y limpio, sin marcas desde su espléndida juventud. En esa visión antegozo y sufro siempre la presencia de corta, interrumpida, por el disfrute que no puedo alcanzar. Y sigo, en una razonable provisión para la contemplación, la preparación del mi próximo enamoramiento – que tiene todo para ser, por los rasgos pasados, similares o incluso de un castigo mayor.
Deseo ante todo lo que no puedo tener.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Nulla res
Estou sentado há mais de três horas na mesma poltrona. Ouve-se muito baixinho uma música, uma ária realmente inaudível, como num sussurro, quase que ciciando as paredes do cômodo estreito. Tenho, pois, numa mão, o controle remoto por meio do qual posso ir repetindo a mesma música sem nunca ter de me mover. Na outra mão, uma taça de vinho que vou repondo gradualmente. Na sala, a única iluminação irradia da chama trêmula da vela que em breve se há de apagar. Faço hora e mais nada. E aquela posição na penumbra serve a me lembrar o vazio triste desse estar aqui, sem expectativas, sem dívidas com o futuro, durando apenas e muito penosamente. Tento procurar algo dentro das minhas lembranças, revolvendo talvez uma invocação de alegria, ou uma saudade pungente, algo como que remanescente da minha caderneta de afeições. Mas também não há nada; meus ressentimentos, minhas paixões, minhas dores perderam-se todos. É quase como se eu não sentisse mais. Ou ainda pior: é quase como se eu nunca tivesse sentido deveras. Para me certificar disso invoco todos os meus monumentos de pedra, tudo o que um dia houve de mais possante sobre meu coração. E eis que, uma outra vez, nada me revela coisa alguma. De repente tudo assume uma inclinação à farsa, como se eu meramente as tivesse inventado, alimentado e depois, por minha própria mão, destruído e posto fora do meu campo de sensações. Então, levantando um pouco de leve a máscara do burlesco, ali está uma acusação ignominiosa, uma inclinação perversa, um vício pelo jogo... como se o viver jamais fosse outra coisa que mero hábito de experimentação. E a relação com as pessoas, sucedidas com mais ou menos arte, uma apetência inveterada pela observação e pela conquista sem escrúpulos. Um rosto vincado de iniquidades, de maldade, de acerbos pensamentos que no entanto não me apavora e nem me surpreende. Olhando para ele, sinto uma familiaridade de há séculos e até um certo fascínio. Entretanto, não tenho mais que um obliteramento de meus sentidos mais internos. Continuo sentado, passando as horas. Aguardando uma novidade outra da vida. Um jogo menos igual, ou então um outro bocado da variedade do existir, dessa inserção afadigada do estar no mundo que me consomem os anos de esperanças e de rememorações, todas ao fim de um esgar exausto.
domingo, 26 de julho de 2009
"Vingança"
Eu vivia sossegado com a viola do meu lado
Mais feliz do que ninguém
Numa festa no arraiá vi dois óio me olhá
Decidi no improviso, ela me deu um sorriso
E comigo foi morar
Nunca mais fui cantador e a viola descansou
Eu vivia pra cabocla, eu vivia pra cabocla
Só pensava em meu amor
Nunca fui feliz assim, eu mesmo disse pra mim,
Pensei que a felicidade, pensei que a felicidade
Não pudesse ter um fim
Mas um dia a malvada foi-se embora e me esqueceu
Com um caboclo decidido, Juca Antônio conhecido
Cantador mais do que eu
Já cansado de esperar, desisti de procurar
A cabocla que um dia levou minha alegria
E eu jurei de vingar
Numa festa fui cantar e a mulata tava lá
Juro por Nossa Senhora, juro por Nossa Senhora
Que a cabocla eu quis matar
Mas fiquei sem respirar quando vi ela dançar
Ela tava tão bonita, ela tava tão bonita
Que esqueci de me vingar
Francisco Mattoso & José Maria de Abreu
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Outro torneio
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Ontem
Ontem eu me senti hesitante mais uma vez. Hesito sempre que lembro. E o tempo, preso ao meu tornozelo como um peso de chumbo, me fez retroceder um poucochinho a outros anos passados. Tudo isto anda bem atado junto de mim, e não ignoro que às vezes essas lembranças tolas, embaçadas, me forçam a circunvoluções que eu já me esquecera de mover.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Conversações
sábado, 4 de abril de 2009
E quando hás de voltar? Ah, então não voltarás mais? Foste embora para sempre? Sempre? Diabo de situação estranha. Descofio que não entendo nada disto. Em todo o caso, hei de esperar. Coloco aqui uma pedra na qual me sentarei e pronto. Espero.
Já é chegada a noite e nada de ti. Teria medo de que pudesses não vir, sendo tão tarde. Mas te conheço bem, e há tantos anos... seria impossível que me abandonasses hoje. Não, não faria sentido. Esperarei um pouco mais.
Enquanto te espero, recordo a maciez da tua presença... o sentido claro, maravilhoso de quando estás aqui. E toda a envergadura do sorriso, toda a bonomia cabida dentro dele, e uma alegria que eu mesmo não tenho mas que dele me contamina a cada vez... a cada vez que te espero.
Certamente é por isto que te espero, porque te esperar me completa, me permite sentir qualquer ligação, qualquer coisa assim de intermédio entre nós dois... qualquer coisa inexistente, mas que a minha abstração faz abastar e me tranquiliza como uma canção barroca ao fim da noite.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Tristesse
Dinis era triste como outros são bonitos ou feios. Antes fosse mau, porque a maldade é uma deliberação da vontade, uma reação à ferida própria dos grandes amantes. A tristeza, quando se apresenta de raiz, provoca danos irreparáveis. Porque a tristeza tem um único antídoto de sobrevivência, que é a crueldade.
Inês Pedrosa
Ah sobriedade de todas as coisas, sobriedade matizada de azul e tons de cinza. Sobriedade que não posso mais recuperar, que nem me reconhece mais e nem eu a ela por lhe vir passar. Mas há coisas assim, por demais irrecuperáveis, que me vão amortecendo e dissipando um pouco após todos os dias.
É por causa desse amortecimento, ou dessa dissipação, que me vou esquecendo dos dias. Um dia posto sobre outro, e mais outro. Até não haver mais nenhum a consumir. Exausto de dias, e os dias a se exaurirem de mim.
Quanto acúmulo de pensamentos tristes, e uma deformação da função natural das coisas, uma deformação do que era antigamente a ponto de eu me esquecer de como ela chegou a ser o que é agora. E esse maneira estranha de resistência, pusilânime, esgarçada desde sua raiz. Esse jogo de contrários onde exponho tudo na tentativa de ocultar, de velar, anulando talvez um estado impossível de se corrigir.
Amargurando-me vezes sem conta nessa tristeza nativa é que também acabo bruto, vil, e ainda mais fraco que no dia em que comecei. Nesses anos todos, vilipendiei-me por vontade própria. Era nisso que extraía meu verdadeiro prazer, conhecendo demoradamente cada circunstância, cada movimento, cada deliberação das engrenagens dessa tristeza que ao cabo me levava inteiro.
Ah sobriedade das coisas mortas, de tempos idos, élan de tudo isso em que não estou. E eu, tolo, a ensaiar maneiras de bravura que não resolveram de nada. Eu, sempre e mil vezes tolo, a projetar a redenção desta sorte na litania dos sonhos idos...
Escasseia o dia, e assisto as derradeiras notas de calor junto do espectro de luz irem embora. Sem ruídos, sem melodia a escuridão vai crescendo, tomando conta, forrando meus olhos de penumbra e mansidão. Ela me faz lembrar tantas coisas, ela me apavora tanto, e assim mesmo me alenta dizendo que vai passar, que tudo vai passar e em breve deixarei este corpo, e com ele essa superveniência de pensamentos ruins, e tristes, e longos e oblíquos. A penumbra suavíssima desses minutos me instrui calmamente na esperança do gozo e é assim que posso adormecer.
Parece não importar tanto que coisas se tenham passado, que eu tenha passado e, finalmente, as pessoas todas que por mim passaram o terem feito sem preocupação nenhuma desse trânsito melindroso. Aqui, colocado no alto de um vale, eu assisto a noite desenrolar-se pouco a pouco sobre a imensidão. Olho sorridente para tudo isso, olho sem receios, sem ressentimento algum.
